sexta-feira, 8 de junho de 2012

A mãe

É muito estranho você começar uma amizade e de cara já quererem marcar um programa com a mãe junto. Fui isso o que aconteceu. Eu a conheci num curso de línguas, ela um pouco mais velha do que eu. Normal estar na casa dos trinta e morar com a mãe, acho que seria a minha situação se não tivesse me casado. Quando a amizade ficou um pouco mais próxima ela marcou um café na casa dela em companhia da mãe. Não ia me negar e dizer que a mãe dela não deveria estar presente na própria casa. Cheguei lá e fui recebida pelas duas e passei a tarde inteira conversando com as duas. Era como se fossem uma só. A mãe era daquelas mulheres que ficam com os cabelos todos brancos e o rosto enrugado, mas que você enxerga claramente a adolescente por detrás. Ela havia sido jornalista e ainda trazia o gosto pelos assuntos atuais. A conversa era interessante, divertida. Falávamos de filmes, livros, assuntos gerais, cultura, não encontrei um único assunto que aquela mulher não conhecesse, não tivesse uma opinião original, não conversasse de maneira atenta. Apesar de serem pessoas fechadas, elas me fizeram da casa. Acabei não apenas me acostumando como gostando muito desse esquema de ser amiga de mãe e filha.

Só que à medida em que fui me aproximando, surgiram alguns momentos que eu finalmente pude falar só com a filha - um telefonema, uma ida ao banheiro, uma saidinha rápida pra resolver algum problema. Nesses momentos a filha aproveitava pra me contar que as coisas não eram um mar de rosas. Que sua mãe parecia muito legal mas que não era assim, e a relação delas era problemática. A mãe teria muito ciúmes dela, da ligação dela com o pai (que nunca estava presente nas reuniões), da sua juventude. Então perto da mãe ela nunca podia me falar do que estava acontecendo com ela, das suas paixões e decepções, do seu ex-marido que era quase um segredo. Isso não me surpreendeu, relações entre mães e filhas são complicadas mesmo. Começaram a surgir problemas na família, que só soube por sussurros enquanto a mãe não estava - parece que o marido ausente estava cansado e estava prestes a pedir separação. Então quando eu ligava a mãe não conversava mais comigo, não me convidava, apenas falava Oi e passava o telefone pra filha. A filha, finalmente livre, adorava me contar as últimas paixonites, o fora que levou, a vontade de ter um namorado. Longe da mãe, ela queria ter a típica confidência entre meninas. Eu achei um saco.

Elas acabaram se mudando e perdemos contato. Com elas, me sentia como um episódio do Sex and the city, em que a Carrie quase manteve um namoro só porque adorava a sogra.